Patrimonialismo: o debate brasileiro e alguns elementos para sua crítica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20336/rbs.788

Resumo

O presente artigo se dedica a reconstruir os principais momentos do debate sobre patrimonialismo no Brasil até os dias atuais e a pensar criticamente seus limites. Ele se inicia com o que chamo de discussão “clássica” sobre patrimonialismo no Brasil, que vai desde os ensaístas sociais da década de 1930 até discussões dos anos 1970 e começo dos 1980. Na sequência, trato de releituras sobre o tema do patrimonialismo que tiveram lugar nas últimas duas décadas. No próximo passo, mostro em que medida as críticas de Maria Sylvia de Carvalho Franco e Jessé Souza ao uso do conceito de patrimonialismo não conseguem transcender o terreno do debate em torno da “recepção equivocada” de Weber no Brasil. Em seguida, mostro como a leitura que Jessé Souza faz de Weber, influenciada pelas correntes das modernidades alternativas e modernidades múltiplas, impede que o autor brasileiro tenha uma visão mais alargada da modernidade que a veja como constituída de forma simultânea no centro e na periferias globais. Por fim, a partir do debate brasileiro sobre o patrimonialismo, esboço elementos de tal visão da modernidade.

Biografia do Autor

Ricardo Pagliuso Regatieri, Universidade Federal da Bahia

Professor Adjunto do Departamento de Sociologia e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia.

Referências

Anderson, Kevin B. (2019). Marx nas margens: nacionalismo, etnias e sociedades não ocidentais. Boitempo.

Bastos, Élide R. (2005). Raízes do Brasil – Sobrados e mucambos: um diálogo. Perspectivas, 28, 19-36.

Bastos, Élide R. (2001). Brasil: um outro Ocidente? Gilberto Freyre e a formação da sociedade brasileira. Ciência & Trópico, 29(1), 33-60.

Bastos, Élide R. (1998). Iberismo na obra de Gilberto Freyre. Revista USP, (38), 48-57. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i38p48-57

Bendix, Reinhard. (1963). Concepts and generalizations in comparative sociological studies. American Sociological Review, 28(4), 532-539. https://doi.org/10.2307/2090069

Bhambra, Gurminder K. (2007). Rethinking modernity: postcolonialism and the sociological imagination. Palgrave Macmillan.

Botelho, André. (2013). Teoria e história na sociologia brasileira: a crítica de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Lua Nova, (90), 331-366. https://doi.org/10.1590/S0102-64452013000300012

Campante, Rubens G. (2003). O patrimonialismo em Faoro e Weber e a sociologia brasileira. Dados – Revista de Ciências Sociais, 46(1), 153-193. https://doi.org/10.1590/S0011-52582003000100005

Carvalho Franco, Maria S. (1997). Homens livres na ordem escravocrata. Editora da Unesp.

Carvalho Franco, Maria S. (1976). As ideias estão no lugar. Cadernos de Debate, 1, 61-64.

Carvalho Franco, Maria S. (1972). Sobre o conceito de tradição. Cadernos – Centro de Estudos Rurais e Urbanos, 5, 9-40.

Domingues, José M. (2008a). Latin America and contemporary modernity: a sociological interpretation. Routledge.

Domingues, José M. (2008b). Patrimonialismo e neopatrimonialismo. In L. Avritzer et al. (Org.), Corrupção: ensaios e críticas (pp. 158-162). Editora UFMG.

Eisenstadt, Shmuel N., & Schluchter, Wolfgang. (1998). Introduction: Paths to early modernities – a comparative view. Daedalus, 127(3), 1-18.

Faoro, Raymundo. (2008). Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. Globo.

Faoro, Raymundo. (1993). A aventura liberal numa ordem patrimonialista. Revista USP, (17), 14-29. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i17p14-29

Faoro, Raymundo. (1992). A questão nacional: a modernização. Estudos Avançados, 6(14), 7-22. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141992000100002

Fernandes, Florestan. (2006). A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Globo.

Freyre, Gilberto. (2003). Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Global.

Guimarães, Antonio S. A. (2002). Democracia racial: el ideal, el pacto y el mito. Estudios Sociológicos, 20(2), p. 305-333.

Haddad, Fernando. (2017). Vivi na pele o que aprendi nos livros: um encontro com o patrimonialismo brasileiro. Piauí, 129. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vivi-na-pele-o-que-aprendi-nos-livros/

Hall, Stuart. (1992). The West and the rest: discourse and power. In S. Hall & B. Gieben (Ed.), Formations of modernity (pp. 185-227). Cambridge: Open University Press.

Hirano, Sedi. (1988). Pré-capitalismo e capitalismo. Hucitec.

Holanda, Sérgio B. (1995). Raízes do Brasil. Companhia das Letras.

Lynch, Christian E. C. (2013). Por que pensamento e não teoria? A imaginação político-social brasileira e o fantasma da condição periférica (1880-1970). Dados – Revista de Ciências Sociais, 56(4), 727-767. https://doi.org/10.1590/S0011-52582013000400001

Pereira, Anthony W. (2016). Is the Brazilian State “patrimonial”?. Latin American Perspectives, 43(2), 135-152. https://doi.org/10.1177%2F0094582X15616119

Portela Júnior, Aristeu. (2012). Florestan Fernandes e o conceito de patrimonialismo na compreensão do Brasil. Plural – Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, 19(2), 9-27. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2176-8099.pcso.2012.74433

Prado Júnior, Caio. (1996). Formação do Brasil contemporâneo: colônia. Brasiliense.

Quijano, Aníbal. (2000) Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In E. Lander (Comp.), La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales: perspectivas latinoamericanas (pp. 117-142). CLACSO.

Quijano, Aníbal, & Wallerstein, Immanuel. (1992). La americanidad como concepto, o América en el moderno sistema mundial. Revista Internacional de Ciencias Sociales, 134, 583-591.

Randeria, Shalini. (1999). Jenseits von Soziologie und soziokultureller Anthropologie: zur Ortbestimmung der nichtwestlichen Welt in einer zukünftigen Sozialtheorie. Soziale Welt, 50(4), 373-382.

Schwarcz, Lilia M. (2019). Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras.

Schwarz, Roberto. (2005). As ideias fora do lugar. In R. Schwarz, Cultura e Política. Paz e Terra.

Schwartzman, Simon. (2015). Livros de Simon Schwartzman radiografam o Brasil contemporâneo. Entrevista com Simon Schwartzman. Jornal da UNICAMP, 622, 6-7.

Schwartzman, Simon. (2007). Bases do autoritarismo brasileiro. Publit.

Sell, Carlos E. (2017) The two concepts of patrimonialism in Max Weber: from the domestic model to the organizational model. Sociologia & Antropologia, 7(2), 315-340. https://doi.org/10.1590/2238-38752016v721

Sell, Carlos E. (2015, 20-23 jul.) Max Weber e o problema do eurocentrismo [Apresentação de trabalho]. XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre.

Sell, Carlos E. (2010). Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber. Vozes.

Souza, Jessé. (2000). A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema brasileiro. UnB.

Souza, Jessé. (2018a). Subcidadania brasileira: para entender o país para além do jeitinho brasileiro. Leya.

Souza, Jessé. (2018b). A classe média no espelho. Estação Brasil.

Souza, Jessé. (2017). A elite do atraso: da escravidão à Lava jato. Leya.

Souza, Jessé. (2016). Max Weber y la orientalización de América Latina. In Á. Laiz & E. Weisz (Ed.), Max Weber en Iberoamérica: nuevas interpretaciones, estudios empíricos y recepción. Fondo de Cultura Económica.

Souza, Jessé. (2015). A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. LeYa.

Subrahmanyam, Sanjay. (1997). Connected histories: notes towards a reconfiguration of early modern Eurasia. Modern Asian Studies, 31(3), p. 735-762. https://doi.org/10.1017/S0026749X00017133

Taylor, Charles. (1999). Nationalism and modernity. In R. Beiner (Ed.), Theorizing nationalism. State University of New York Press.

Tible, Jean. (2014). Marx e os outros. Lua Nova, (91), 199-228. https://doi.org/10.1590/S0102-64452014000100008

Villas Bôas, Glaucia. (2014). A recepção controversa de Max Weber no Brasil (1940-1980). Dados – Revista de Ciências Sociais, 57(1), 5-33. https://doi.org/10.1590/S0011-52582014000100001

Wallerstein, Immanuel. (2004). World-systems analysis: an introduction. Duke University Press.

Wallerstein, Immanuel. (1976). Semi-Peripheral Countries and the Contemporary World Crisis. Theory and Society, 3(4), 461-483. https://doi.org/10.1007/BF00161293

Weber, Max. (1980). Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriß der verstehenden Soziologie. Mohr.

Werneck Vianna, Luiz. (1999). Weber e a interpretação do Brasil. In J. Souza (Org.), O malandro e o protestante: a tese weberiana e a singularidade cultural brasileira (pp. 173-194). Editora da Universidade de Brasília.

Downloads

Publicado

31-12-2021

Edição

Seção

Artigos